Organizando o fundamental II: nem criança, nem adulto – o adolescente na escola

Você conhece o mito da fênix? A ave mitológica que renasce das cinzas após queimar no fogo. Entre muitos significados e narrativas deste mito, um deles é a ideia de renascimento, ciclos da vida, renovação.

Ao conceituarmos a adolescência podemos usar a fênix como uma representação deste período de nossas vidas. Como adultos, temos a tendência de esquecermos como chegamos até o momento que estamos vivendo e das experiências de vida que nos ajudaram a evoluirmos.

Como a fênix, ao entrarmos na adolescência precisamos reconstruir nossa imagem e nossos valores para ao final chegarmos a fase adulta. E isso não é tarefa simples, aliás é um período cheio de sentimentos confusos, rebeldia e inseguranças com a própria imagem.

Desde nosso nascimento até o início da puberdade aprendemos a lidar com nosso corpo, nossos sentimentos, nossos desejos, aprendemos a estabelecer parcerias e a lidar com o mundo. Imagine recomeçar tudo isso? De repente seu corpo não é mais o mesmo, sentimentos diferentes invadem sua mente. Uma necessidade de ser aceito um grupo aumenta e o mundo parece muito estranho e grande para tomar decisões.

Lembra de quando passou por este período? De suas dúvidas e angústias? De quantas tribos desejou participar? De como era difícil estar com o outro? Do tamanho que os sentimentos tomavam?

Para Piaget, a adolescência é o período em que ocorrem mudanças na maneira como os adolescentes pensam sobre si mesmos, sobre seus relacionamentos pessoais e sobre a natureza da sua sociedade têm como fonte comum o desenvolvimento de uma nova estrutura lógica que ele chamava de operações formais.

Para Freud, a adolescência é um período de mudanças no qual o jovem tem que aceitar a perda da identidade infantil e dos pais, da infância, para que, pouco a pouco, possa assumir a sua identidade, agora adulta. 

Junte a estes elementos a quantidade de informações que esta geração recebe e as relações que também precisa aprender a estabelecer no universo virtual que acaba por potencializar todos os demais sentimentos e inseguranças característicos desta fase.

Complicado não é mesmo? E onde estes adolescentes estão passando a maior parte do tempo lidando com todas estas transformações? Na escola.

Os anos finais do ensino fundamental II acabam sendo marcados com problemas de indisciplina, alunos mais rebeldes as regras e os docentes queixando-se do desinteresse das turmas em envolverem-se pelos estudos.

Não há fórmula pronta para resolvermos estas questões, mas podemos rever alguns pontos de nossas ações no espaço escolar para auxiliarmos nossos alunos a passarem por este período de modo mais tranquilo, buscando sua formação integral.

  1. Lidando com sentimentos: o trabalho com as competências socioemocionais – importante que a escola seja um espaço de aprendizagem não apenas de conteúdo, mas que sejam trabalhadas competências ligadas a formação integral do sujeito. Na BNCC estas competências estão ligadas a projeto de vida e trabalho, empatia e cooperação e responsabilidade e cidadania, além do trabalho em equipe e proatividade. Algumas sugestões para implantação de ações que possam ajudar no desenvolvimento destas ações são: projetos de empreendedorismo, trabalhos voluntários com os alunos, implantação do grêmio escolar, tutoria de estudo feitas pelos alunos, projetos que envolvam a criação de soluções para problemas levantados na comunidade escolar.
  2. Lidando com conflitos: é preciso que a escola crie situações de diálogo entre os alunos para que possam aprender a lidar com conflitos e a ter empatia. Crescem os números de casos de bullying e ciberbullying nas escolas. Palestras formativas com especialistas para os alunos que compreendam a responsabilidade que devem ter pelo outro e pelo que publicam nas redes,  assembleias para que todos possam discutir os problemas e tomarem decisões, criação de campanhas pelo respeito e aceitação do outro feitas pelos alunos são algumas sugestões que podem ser implantadas.
  3. Cuidando da saúde física e mental: apesar de imaginarmos que os alunos têm acesso a muitas informações, muitas vezes isto não significa que houve a real compreensão de certos assuntos, principalmente os ligados a sexualidade, uso de drogas, cuidados pessoais. Muitas vezes será na escola que o adolescente terá espaço para lidar com dúvidas e buscar respostas para seus conflitos. Podemos promover palestras com especialistas, desenvolvermos projetos ligados com estes assuntos, visitas a instituições, depoimentos e entrevistas com pessoas da própria comunidade como policiais, assistentes sociais, familiares que trabalhem na área médica. Ter um tutor na escola para que os alunos possam ter como apoio para conversarem quando sentirem necessidade.
  • Desenhando o futuro: aprendendo a me organizar – ao ingressarem o 6º ano, muitas coisas mudam na vida dos alunos. Mais professores, mais assuntos para estudarem, cobranças diferenciadas, atividades extras, que são diferentes do que viveram até o momento. Vale, principalmente com as turmas dos 6os anos, ajudarmos a aprenderem a lidar com a nova dinâmica de estudos, com a quantidade de componentes curriculares e professores. Ter um tutor da turma e ensiná-los a trabalhar com a organização do dia, das tarefas, a planejarem o que precisam produzir e estudar, a administrar o tempo, ajudarão muito no processo que iniciam. Outros projetos de grande importância ao longo dos anos finais do fundamental estão relacionados a ajudarem a planejarem seu tempo, suas atividades, seu sono, suas horas de lazer, suas tarefas, suas entregas. Também a desenharem seu projeto de vida (competência da BNCC).
  • Atividades formativas: a escola pode oferecer aos alunos atividades extras como oficinas ligadas a cultura maker, tecnologia, empreendedorismo e outros assuntos de interesse de seus alunos. É importante que a escola seja um espaço em que os alunos se sintam bem e possam exercitar a convivência em grupo e as trocas.
  • Vida e bem-estar: aprender a se alimentar melhor e praticar esportes são necessários para nossos adolescentes que, por vezes, não tem espaço para a prática esportiva e nenhuma orientação para levarem uma vida saudável. Cresce o número de crianças e adolescentes obesos e sedentários que desenvolvem problemas de saúde antes atribuídos a pessoas com mais idade. Campanhas para desenvolverem hábitos saudáveis, uma cantina que ofereça alimentos de qualidade e menos industrializados, aulas em que pratiquem esportes e sejam orientados a cuidarem do corpo são algumas sugestões.

É muito importante que nós docentes não nos esqueçamos que a fase da adolescência é um período conflituoso e, que em muitos casos, nosso aluno não compreende bem o que está vivendo. Faz parte da formação integral do sujeito o seu desenvolvimento cognitivo, afetivo e social, portanto, o espaço escolar não deve ser apenas um local para aprender conteúdos, mas também para construir relações e aprender a ser.

Que possamos ajudar nossos alunos a construírem as bases necessárias para a vida adulta, e que terminem sua experiência no ensino fundamental desenvolvendo as competências esperadas para sua formação integral, promovendo seu crescimento para que tornem-se cidadãos capazes de construírem uma sociedade mais justa, consciente e que respeita a diversidade.

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Artigo escrito por:

Tatiana Pita

Tatiana Pita

Pedagoga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com especialização em Psicopedagogia pela UNIP. Mestre em Educação pela PUC-SP, no programa História, Política e Sociedade, atua como docente nos cursos de graduação em Pedagogia e em programas de pós-graduação na área educacional.